As relações históricas e afetivas na construção do resgate do Centro Histórico de São Paulo

Ciro Pirondi*

As cidades possuem camadas sobrepostas de tempo. Nelas, civilizações se movem e constroem suas histórias.

Por ser o local onde o “mundo mais se move e os homens estabelecem relações”, se configura por excelência como o lugar da educação. Cidade e Natureza constituem o principal e mais oportuno discurso. A reflexão sobre como, para quem e por que temos construídos cidades - em confronto direto com as pré-existências naturais das águas, das florestas e dos animais - é a mais urgente pauta de reflexão para políticos, investidores, especialistas e principalmente todos nós, a população que vive o cotidiano da vida urbana.

Temos nos demonstrado incapazes de desenhar e construir uma cidade inclusiva. Parece um paradoxo, pois a ideia de cidade é indissociável da de inclusão, participação e justiça para todos.

Inventamos esse fantástico artefato para todos e não para alguns. Quais motivos, a não ser os do egoísmo humano, de posses sem limite, nos levam a continuar reproduzindo um sistema equivocado de ocupação dos espaços pré-estabelecidos e existentes antes de nós chegarmos.

As cidades foram feitas de erros e acertos. Devemos admitir que muito mais temos errado do que acertado em nossas tentativas.

Planos diretores e teses acadêmicas não faltam. No entanto, nos demonstramos incompetentes, basta caminhar pela cidade.

Quando pensamos na ideia de resgate, pensamos na dimensão afetiva, pois só queremos resgatar o que amamos e nos foi tirado.

A possibilidade de caminharmos em calçadas e espaços gentis, acolhedores no Centro Histórico da cidade de São Paulo, nos foi roubado. Retomar esta condição é uma medida urgente, oportuna e necessária. Ações que valorizam a história material e imaterial desta área da cidade sempre são válidas.

Entender o centro histórico de uma cidade como São Paulo, fundada no pátio de um colégio jesuíta, como local do encontro e da troca é entender a sua dimensão mais significativa.

Abdicamos da beleza. Fizemos muita construção e pouca arquitetura, como nos falava o mestre Lúcio Costa, ou como nos ensinou Z. Bauman: “As cidades contemporâneas são áreas de descarga para os produtos malfeitos e deformados da sociedade moderna”.

Para sairmos deste círculo vicioso, superarmos a forma exploratória de uso e ocupação do solo, herdada de nosso passado colonial, e construirmos uma cidade mais bela e digna para todos, é necessário entendê-la como local da fusão de horizontes, e não buscarmos soluções apenas locais para problemas gerados globalmente.

Vontade política associada a competências técnicas multidisciplinares em conexão democrática com a população, por certo gerarão mudanças no tempo, que não pode ser apenas o tempo de um mandato político.

Tempo, vontade política democrática e competências múltiplas, associados à compreensão de que as cidades são físicas, espaciais, possuem topografia, ventos... Nelas, se caminham ao sol e rios e árvores não nossos inimigos; portanto, não é prudente continuarmos poluindo as águas e “deitando” as matas, pois além de ser um erro econômico, nelas habitam civilizações maravilhosas.

Animais e árvores nos ensinam que o único caminho possível, se quisermos nos desviar da rota de colisão que estamos, é o compartilhamento. Na natureza só sobrevive quem aprendeu a compartilhar como esclarecem os estudos da Ciência Botânica contemporânea. Não foi o mais forte que se adaptou, como pensávamos desde Darwin, mas sim os que se constituíram solidariamente em uma inteligência coletiva.

Temos de aprender com a natureza, pois nós também somos ela. No século XXI, devemos desenhar nossas cidades como uma inteligência múltipla e generosa, onde todos possam viver de maneira inclusiva e justa.

* Arquiteto, diretor da Fábrica-Escola de Humanidades e fundador da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

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